Do discurso à tela: estratégia, linguagem, produção e candidato
DO DISCURSO À TELA: ESTRATÉGIA, LINGUAGEM, PRODUÇÃO E CANDIDATO
Audiovisual aplicado às eleições
Felipe Soutello, Ana Lucia Mendonça, Manuela Maia
Quando pensamos em audiovisual aplicado às campanhas eleitorais, existe uma tentação bem comum: começar pela câmera.
Pensar no programa de televisão, no filme, no vídeo para as redes sociais, no cenário, na fotografia, na música ou no formato que será utilizado. Mas essa é uma inversão da lógica do processo criativo. O audiovisual não é o ponto de partida de uma campanha, é uma ferramenta colocada a serviço de uma estratégia política e de comunicação.
Antes da câmera existe o discurso. Antes do roteiro existe uma estratégia. E antes de decidir se uma campanha precisa produzir um filme emocional, um depoimento, uma peça de ataque, um programa de propostas ou um vídeo de quinze segundos, é necessário compreender qual impacto se pretende produzir na percepção do eleitor.
A primeira pergunta, portanto, não é "o que vamos filmar?", mas "o que essa candidatura pretende dizer?".
Quem é esse candidato? O que ele representa? Qual problema da sociedade pretende enfrentar? Quais valores carrega? Contra o que se posiciona? Que futuro propõe? E, sobretudo, por que essa candidatura deveria existir?
É desse conjunto de respostas que nasce o discurso. E discurso, nesse sentido, não deve ser entendido apenas como aquilo que o candidato fala em um palanque ou diante de uma câmera. O discurso é um sistema de significados que organiza a campanha. Biografia, propostas, adversários, símbolos, imagens, palavras, cenários, música, comportamento e audiovisual precisam guardar algum grau de coerência entre si.
Uma campanha sem discurso pode produzir filmes tecnicamente extraordinários e politicamente irrelevantes. Uma campanha, com um discurso consistente, pode transformar uma produção relativamente simples em um poderoso instrumento de comunicação política.
Essa discussão nos leva a uma referência que atravessa mais de dois mil anos de história da comunicação: Aristóteles e sua compreensão da retórica a partir de três dimensões fundamentais — ethos, pathos e logos.
O ethos está relacionado a quem fala. É a credibilidade daquele que apresenta a mensagem, sua trajetória, caráter, autoridade e capacidade de produzir identificação. Em uma campanha eleitoral, não basta uma ideia ser verdadeira ou razoável, o eleitor também considera quem está dizendo aquilo e se aquela pessoa possui legitimidade para dizê-lo.
O pathos está relacionado às emoções. Esperança, indignação, medo, orgulho, confiança, pertencimento, solidariedade e desejo de mudança são dimensões fundamentais da comunicação política. O eleitor não é um ser exclusivamente racional que compara propostas como quem compara especificações técnicas de dois produtos. Política envolve identidade, emoção e percepção.
O logos, finalmente, representa a dimensão racional do argumento. São as propostas, números, comparações, realizações, explicações e demonstrações que ajudam o eleitor a justificar racionalmente uma escolha.
O audiovisual eleitoral trabalha permanentemente com essas três dimensões.
Um bom programa eleitoral raramente é exclusivamente racional ou exclusivamente emocional. Ele constrói uma relação entre quem fala, aquilo que sentimos diante da mensagem e as razões que nos permitem acreditar nela. Podemos transportar essa tradição da retórica para aquilo que chamamos de Jornada do Eleitor.
Para fins de estratégia de comunicação eleitoral, pode-se organizar essa jornada em três grandes movimentos: empatia, racionalidade e consentimento social.
Primeiro é necessário estabelecer algum grau de empatia, ou seja, antes de convencer alguém, precisamos criar uma conexão. O eleitor precisa reconhecer naquela candidatura alguma coisa que dialogue com sua própria experiência, valores, problemas ou suas expectativas. Precisa existir algum ponto de contato.
Uma vez estabelecida essa conexão inicial, o eleitor procura razões capazes de justificar aquela possibilidade de escolha, ou seja, busca ter racionalidade na sua escolha. A experiência administrativa, as propostas, realizações, capacidade de liderança, trajetória profissional, comparações com adversários ou demonstrações concretas cumprem essa função. Mas existe ainda uma terceira dimensão, muitas vezes subestimada: o consentimento social.
O eleitor precisa perceber que aquela escolha não é apenas individualmente possível, mas socialmente aceitável e compartilhada. Pesquisas, apoios, manifestações populares, imagens de rua, lideranças, depoimentos, movimentos de adesão e outros mecanismos de validação social cumprem parte dessa tarefa.
Em termos bastante simples: a empatia aproxima, a racionalidade justifica e o consentimento social autoriza.
Isso tem enorme importância para o audiovisual porque cada peça deveria saber qual movimento pretende produzir. Nem todo vídeo precisa fazer tudo ao mesmo tempo. Uma peça pode existir para apresentar um candidato desconhecido. Outra para humanizá-lo. Outra para demonstrar capacidade administrativa. Outra para desconstruir um adversário. Outra para apresentar uma proposta. Outra para responder a um ataque. Outra para mostrar que uma candidatura está crescendo e adquirindo apoio social.
Portanto, antes de decidir a linguagem audiovisual, precisamos conhecer sua função.
Quando o discurso e os objetivos de comunicação foram estabelecidos ainda existe uma etapa intermediária particularmente importante nas campanhas brasileiras: conhecer os meios efetivamente disponíveis e as regras que condicionam sua utilização.
A legislação estabelece uma arquitetura bastante específica para rádio e televisão, uma campanha eleitoral não trabalha em um ambiente de comunicação inteiramente livre.
O estrategista precisa saber quanto tempo de propaganda a candidatura terá, quantas inserções estarão disponíveis, quais partidos políticos contribuíram para sua formação, quais formatos poderão ser utilizados, quais emissoras serão alcançadas e quais possibilidades territoriais de distribuição existem.
Isso muda profundamente a estratégia audiovisual.
Nas eleições gerais as emissoras devem reservar 50 minutos diários, vespertino e noturno para para governador (20), senador (10) e deputado estadual (20), segunda, quarta e sexta — e presidente (25) e deputado federal (25) nas terças, quintas e sábados; além dos 70 minutos diários para inserções de 30 e 60 segundos, distribuídas ao longo da programação diária, e os programetes em blocos, de acordo com os critérios previstos na legislação eleitoral. A legislação brasileira estabelece critérios de distribuição relacionados, entre outros fatores, à representação dos partidos. Dessa forma, a composição política de uma aliança pode produzir consequências diretas sobre a capacidade de comunicação eleitoral. Um partido não representa apenas apoio político, estrutura territorial ou presença parlamentar. Em determinadas circunstâncias, sua participação também influencia o tempo disponível para comunicação no rádio e na televisão.
Uma candidatura que dispõe de vários minutos de televisão pode desenvolver raciocínio, apresentar personagens, construir histórias, estabelecer contraditórios, atacar adversários e trabalhar diferentes camadas argumentativas. Outra candidatura pode precisar comunicar praticamente toda sua identidade política em poucos segundos. O tempo disponível, portanto, não é simplesmente uma questão operacional. Ele condiciona a linguagem.
A própria formação desse tempo revela a conexão entre política e comunicação.
Existe ainda uma dimensão territorial importante. Rádio e televisão operam a partir de emissoras e áreas de cobertura e a organização da propaganda eleitoral, pelos Tribunais Regionais Eleitorais, pode criar possibilidades específicas de distribuição territorial das mensagens. Dependendo da eleição, da estrutura de geração e das decisões aplicáveis, podem existir oportunidades de regionalização.
Isso abre uma discussão estratégica muito interessante: uma campanha precisa necessariamente dizer exatamente a mesma coisa, da mesma maneira, para todo mundo?
A resposta pode ser não.
Regionalizar não significa construir campanhas diferentes ou abandonar uma narrativa central. Significa reconhecer que um mesmo projeto político pode ser demonstrado de maneiras distintas de acordo com as características de cada território.
Uma região industrial pode exigir determinados argumentos. Uma área predominantemente agrícola, outros. Uma região metropolitana pode responder mais intensamente a transporte, mobilidade ou habitação. Em outro território, saúde, segurança, infraestrutura ou desenvolvimento regional podem ocupar posição central.
A identidade da candidatura permanece. O discurso permanece. O que muda é a demonstração. Podemos pensar, portanto, em uma narrativa central acompanhada de demonstrações territorialmente relevantes.
A legislação também interfere diretamente na própria construção das peças. Existem regras extremamente específicas sobre aquilo que pode aparecer na propaganda eleitoral, inclusive limitações relacionadas à participação de apoiadores em determinadas situações. Um exemplo interessante para uma aula sobre audiovisual é a conhecida referência ao limite de 25% do tempo da peça para determinadas participações previstas na legislação.
Mais do que decorar a regra, interessa compreender sua consequência narrativa. Se uma determinada participação está limitada a uma fração da peça, o apoio não pode se transformar no próprio programa. Precisa ser incorporado como elemento de uma narrativa maior.
Esse é um bom exemplo de como a regulamentação eleitoral brasileira chega até a sala de roteiro e a ilha de edição. Podemos discutir se determinadas normas continuam adequadas a um sistema de comunicação profundamente transformado pelas redes sociais, pelas plataformas digitais e pelo consumo fragmentado de conteúdo. Mas, enquanto existem, precisam ser conhecidas porque a legislação também condiciona a criação.
Somente depois de compreendermos o discurso, a jornada do eleitor, os objetivos políticos, o tempo disponível, os meios, o território e as restrições legais é que chegamos propriamente à pergunta criativa: que audiovisual precisamos produzir?
E essa pergunta precisa ser formulada de maneira funcional.
Não deveríamos perguntar inicialmente qual filme seria bonito, emocionante ou tecnicamente impressionante. Deveríamos perguntar qual tarefa política aquela peça precisa cumprir.
Apresentar? Humanizar? Explicar? Demonstrar? Comparar? Atacar? Responder? Mobilizar? Produzir esperança? Gerar indignação? Dar segurança? Demonstrar capacidade? Criar consentimento social?
A estética vem depois da função.
Uma forma simples de organizar esse raciocínio é pensar em uma sequência: objetivo, público, efeito, argumento, linguagem e formato.
Primeiro precisamos saber o que queremos conseguir. Depois, com quem estamos falando. Em seguida, qual reação pretendemos provocar nessa pessoa. Só então definimos qual argumento é capaz de produzir essa reação, qual linguagem expressa melhor esse argumento e, finalmente, em qual formato e plataforma ele deverá existir.
Essa ordem parece óbvia, mas frequentemente acontece exatamente o contrário.
A reunião começa com alguém dizendo: "precisamos fazer um vídeo para Instagram". Mas isso ainda não é uma estratégia. Instagram é apenas um meio.
A formulação estrategicamente correta seria algo próximo de: precisamos aumentar a percepção de capacidade administrativa entre determinado segmento do eleitorado. Como podemos fazer isso?
A resposta poderá ser um vídeo para Instagram. Mas poderá também ser televisão, um depoimento, uma peça documental, uma fala direta do candidato, uma sequência de imagens, um testemunho de terceiros ou a combinação desses recursos.
O meio vem depois do problema.
É nesse momento que entramos propriamente na linguagem audiovisual. Roteiro, personagem, conflito, demonstração, imagem, som, música, locução, depoimento, material de arquivo, grafismo, silêncio, ritmo e montagem passam a ser ferramentas para materializar uma intenção política.
Um dos erros recorrentes do audiovisual eleitoral é transformar programas em catálogos de propostas. Outro é produzir filmes publicitários genéricos, tecnicamente sofisticados, mas que poderiam servir para praticamente qualquer candidato.
O verdadeiro desafio é produzir uma comunicação que somente aquele candidato poderia protagonizar.
É nesse ponto que identidade política e linguagem audiovisual se encontram.
A etapa seguinte é transformar essa intenção em produção. Aqui aparece uma característica fundamental desse trabalho: audiovisual eleitoral também é engenharia.
O roteiro precisa considerar simultaneamente conteúdo, duração, imagem, capacidade do candidato, condições de produção, orçamento e prazo. Uma frase excelente no papel pode ser impossível de dizer diante da câmera. Uma ideia brilhante pode exigir uma produção incompatível com o tempo disponível. Um personagem extraordinário na vida real pode simplesmente não funcionar diante da câmera.
Produzir significa transformar conceitos abstratos em segundos, planos, palavras, pessoas, imagens e sons.
Chegamos a um dos momentos mais delicados de todo o processo: o candidato diante da câmera.
Candidatos e Candidatas não são atores e atrizes. O objetivo da direção não é conseguir uma interpretação perfeita, mas obter uma manifestação verdadeira, compreensível e politicamente eficaz daquela pessoa.
Preparar um candidato para uma gravação, portanto, não significa simplesmente fazê-lo decorar um texto. Ele precisa compreender a ideia, a intenção e o percurso da fala. Precisa saber por que está dizendo aquilo, para quem está falando, o que pretende fazer aquela pessoa sentir e qual ideia deseja deixar na cabeça dela. Quando o candidato compreende a intenção, depende menos da memória.
O teleprompter é uma ferramenta extraordinariamente útil, mas não resolve esse problema. Um candidato pode ler perfeitamente um texto e ainda assim produzir uma comunicação completamente artificial. Olhar, respiração, pausas, velocidade, postura, expressão facial e intenção fazem parte da mensagem.
Às vezes, inclusive, uma pequena imperfeição aumenta a credibilidade. O objetivo não é retirar a humanidade do candidato. É retirar aquilo que impede a comunicação.
Por isso, dirigir candidatos exige uma metodologia diferente daquela utilizada tradicionalmente com atores. Instruções abstratas como "seja mais natural", "coloque mais emoção" ou "faça melhor" geralmente ajudam pouco. É mais eficiente trabalhar com intenção.
Em vez de pedir emoção, podemos dizer: conte isso como se estivesse explicando para alguém que perdeu a esperança. Em vez de pedir dramaticidade, podemos lembrar ao candidato que determinada frase não é uma proposta, mas um compromisso. Em vez de pedir naturalidade, podemos estabelecer mentalmente para quem aquela fala está sendo dirigida.
A direção trabalha menos com representação e mais com intenção.
Também é importante compreender que gravar já é editar. A montagem começa antes da câmera ser ligada. Quem dirige precisa imaginar onde haverá cortes, quais imagens poderão cobrir determinada fala, onde uma pausa precisa respirar, onde entra uma demonstração e qual frase precisa existir isoladamente.
Estratégia, discurso, roteiro, produção, direção e montagem formam uma cadeia. Quando cada etapa desconhece as demais, a eficiência diminui. Particularmente no nosso trabalho, a montagem é o coração do processo pois como adotamos um estilo mais documental, o roteiro surge novamente e renovado na própria montagem. A captação de imagens deve ser viva de todos os processos da campanha pois podem apresentar novas oportunidades e, ainda o testemunho dos eleitores contribui em muito para fortalecer as narrativas e ampliar o que é decisivo em eleições: consentimento social.
Finalmente chegamos à distribuição. E, no ambiente contemporâneo, distribuição também não deveria ser pensada apenas depois que o filme está pronto.
Uma mesma ideia pode existir em um programa de dois minutos, uma inserção de trinta segundos, um vídeo vertical de quinze, um corte de poucos segundos, uma fala do candidato, um depoimento, um card animado ou um conteúdo distribuído por aplicativos de mensagem.
Por isso, tornou-se pouco eficiente pensar exclusivamente em um "filme" e, posteriormente, produzir adaptações. A lógica contemporânea recomenda pensar em sistemas audiovisuais modulares. A própria gravação pode prever diferentes enquadramentos, durações, entradas, saídas, argumentos e plataformas.
Nunca podemos deixar de lembrar que o som é decisivo nessa estruturação. Em um país tão musical como o nosso, sons, para além do som direto, musicas, jingles e assinaturas sonoras, são elementos fundamentais nessa jornada de conexão emocional e racionalidade.
Ao final desse percurso, podemos voltar à pergunta inicial: afinal, o que é audiovisual eleitoral?
Não é simplesmente televisão. Não é cinema. Não é publicidade convencional. Também, não é apenas produção de conteúdo para redes sociais.
Audiovisual eleitoral é a utilização organizada de imagem, som, palavra, personagem, argumento e emoção para produzir um movimento político na percepção do eleitor.
E esse movimento começa muito antes da câmera. Começa no discurso. Passa pela compreensão da jornada do eleitor. Encontra os limites e as oportunidades dos meios disponíveis. Considera legislação, tempo e território. Transforma estratégia em linguagem, linguagem em roteiro e roteiro em produção. Prepara uma pessoa real para transformar essa intenção em comunicação. E, finalmente, utiliza diferentes meios para fazer essa mensagem encontrar o eleitor.
A câmera, portanto, está quase no final do processo.
Antes de decidir o que queremos colocar na tela, precisamos saber
o que queremos colocar na cabeça — e no coração — do eleitor.

