Como nasce uma candidatura
Como nasce uma candidatura
Audiovisual aplicado às eleições
Felipe Soutello
Uma candidatura não começa no dia em que alguém decide ser candidata. Na maior parte das vezes, começa muito antes. Começa quando uma pessoa passa a exercer algum tipo de liderança, representa pessoas, defende uma causa, assume responsabilidades ou constrói uma trajetória profissional, comunitária, empresarial, acadêmica, associativa ou pública. Começa, sobretudo, quando passa a ser reconhecida por outras pessoas como alguém capaz de falar por elas.
Algumas candidaturas são planejadas durante anos. Outras surgem de circunstâncias que ninguém poderia prever. Uma eleição muda, um partido precisa de determinado perfil, uma liderança deixa de concorrer, uma questão nova aparece na sociedade ou uma crise transforma alguém em referência. A política tem planejamento, mas também tem circunstância. Na maior parte das vezes, uma candidatura nasce justamente do encontro entre trajetória, circunstância, oportunidade e decisão.
Existe, por isso, uma diferença importante entre querer ser candidata e existir politicamente uma candidatura. A candidatura começa a ganhar sentido quando uma trajetória individual encontra uma necessidade coletiva. A pergunta deixa de ser apenas “por que eu quero ser candidata?” e passa a ser “por que alguém deveria querer que eu fosse candidata?”.
Essa mudança parece pequena, mas talvez seja uma das questões centrais do planejamento político. Eleição não é um processo de afirmação pessoal. É um processo de representação. E representação pressupõe alguém que representa e pessoas que se reconhecem naquela representação.
É justamente por isso que discutir como nascem candidaturas femininas exige falar também sobre a presença das mulheres na política brasileira.
As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro, mas continuam sendo uma minoria bastante expressiva nos espaços de representação. Na eleição de 2022, apenas 91 mulheres foram eleitas para as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, aproximadamente 18% do total. A comparação internacional ajuda a dimensionar essa distância. Há países com sistemas políticos e histórias muito diferentes da brasileira que já alcançaram percentuais próximos ou superiores a 40% de mulheres em seus parlamentos, e alguns chegaram à paridade.
Portanto, não estamos falando apenas de mulheres. Estamos falando de democracia e de representação.
Se aproximadamente metade da sociedade ocupa uma parcela muito menor dos espaços nos quais as decisões públicas são tomadas, existe uma questão que o sistema político precisa enfrentar.
O Brasil tentou responder a essa desigualdade criando mecanismos de ação afirmativa. A legislação passou a exigir que os partidos respeitem um mínimo de 30% e um máximo de 70% de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. Mas a experiência brasileira mostrou rapidamente que colocar o nome de uma mulher na urna não significa necessariamente produzir uma candidatura.
Durante anos convivemos com aquilo que ficou conhecido como candidatura laranja. A candidata estava registrada, mas não tinha campanha, estrutura, recursos ou presença pública. Em alguns casos, sequer havia intenção efetiva de disputar a eleição. A Justiça Eleitoral precisou desenvolver critérios para identificar fraudes à cota de gênero, considerando elementos como votação zerada ou inexpressiva, prestação de contas sem movimentação relevante e ausência de atos efetivos de campanha.
A experiência revelou algo que parece óbvio, mas não é: preencher uma cota não significa produzir participação política.
Foi necessário avançar também sobre os recursos. Hoje, as regras eleitorais asseguram às candidaturas femininas um percentual mínimo dos recursos destinados às campanhas e do tempo de propaganda gratuita, proporcionalmente maior quando a presença de mulheres supera o patamar mínimo estabelecido pela legislação. Também existe destinação específica de recursos partidários para programas voltados à promoção e à difusão da participação política feminina.
São avanços institucionais importantes, conquistados depois de anos de baixa participação e de resistência dentro das próprias estruturas partidárias. Essa resistência também apareceu nas sucessivas discussões sobre anistias aos partidos por descumprimentos relacionados às políticas de participação feminina. Algumas foram efetivamente aprovadas; outras tentativas acabaram retiradas durante o processo legislativo. O histórico demonstra que a construção dessas garantias esteve longe de ser linear.
Talvez essa experiência nos ajude a compreender por que incentivar uma mulher a participar da política não pode significar simplesmente convencê-la a colocar seu nome numa lista partidária.
O desafio é construir candidaturas reais e competitivas.
E então chegamos à pergunta central: como uma trajetória se transforma em candidatura?
Talvez o primeiro passo seja responder a uma pergunta aparentemente simples: quem é você politicamente?
Não se trata ainda de saber a qual partido alguém pretende se filiar. Trata-se de entender o que as pessoas reconhecem quando pensam naquela pessoa. Qual é sua trajetória? Que causas estão associadas a ela? Em quais ambientes possui legitimidade? Quem reconhece sua liderança? Sobre quais assuntos pode falar com autoridade? Que grupos sociais conhece verdadeiramente? E que problema coletivo sua presença na política poderia ajudar a enfrentar?
É daí que nasce o discurso.
Discurso não é simplesmente aquilo que alguém fala em um palanque. É o sistema de significados que organiza uma candidatura. Uma candidata precisa conseguir explicar quem é, no que acredita, qual problema enxerga, que futuro propõe e por que sua presença na política faz sentido.
A comunicação não deveria inventar essas respostas. Deveria organizá-las e amplificá-las.
Essa distinção se tornou ainda mais importante porque vivemos em uma sociedade na qual praticamente toda trajetória deixa registros. Posts antigos, entrevistas, fotografias, vídeos, posicionamentos, atuação profissional e participação em entidades compõem uma espécie de biografia pública permanentemente acessível.
Construir uma candidatura artificial ficou mais difícil. E isso talvez seja uma boa notícia.
Uma boa estratégia não deveria fabricar uma personagem. Deveria encontrar a expressão política mais clara de uma trajetória verdadeira.
A partir daí começa o planejamento eleitoral propriamente dito. E planejar uma candidatura exige deixar de pensar abstratamente em “eleitores” e começar a pensar em pessoas, segmentos, territórios e comunidades de interesse.
Isso é particularmente importante nas eleições proporcionais. Uma candidata a vereadora ou deputada não precisa conquistar metade da sociedade. Precisa identificar quais grupos podem reconhecer nela uma representação.
Pode existir uma base territorial: uma região da cidade, um conjunto de bairros, uma cidade ou um grupo de municípios. Pode haver uma dimensão profissional: advogadas, professoras, profissionais de saúde, empreendedoras, servidoras públicas. Pode existir uma causa: direitos das mulheres, primeira infância, segurança, educação, empreendedorismo, meio ambiente ou proteção animal. E, na maior parte das candidaturas competitivas, existe alguma combinação desses elementos.
O planejamento começa quando conseguimos perguntar concretamente: onde estão as pessoas que podem votar em mim e por que fariam isso?
Mas segmentar públicos não significa criar uma candidata diferente para cada um deles.
Hoje tudo pode ser filmado, tudo pode circular e quase tudo permanece disponível. Uma fala feita para vinte pessoas pode chegar a vinte mil ou dois milhões. Uma reunião aparentemente fechada pode produzir o vídeo que definirá uma semana inteira de campanha.
É possível adaptar a ênfase, os exemplos e a linguagem. O que não pode ser permanentemente reinventado é a identidade.
É nesse momento que entra aquilo que podemos chamar de jornada do eleitor. Para fins de planejamento, podemos organizá-la em três movimentos: empatia, racionalidade e consentimento social.
Primeiro, a empatia. Antes de votar em alguém, o eleitor precisa estabelecer algum ponto de conexão. Pode ser uma experiência compartilhada, um valor, uma causa ou simplesmente a percepção de que aquela pessoa compreende alguma dimensão da sua vida.
Depois aparece a racionalidade. Não basta identificação. É preciso encontrar razões para justificar a escolha. Experiência, preparo, propostas, conhecimento, realizações e capacidade para exercer o mandato passam a importar.
Finalmente existe o consentimento social. O eleitor começa a perguntar se aquela candidatura é possível. Se outras pessoas estão com ela. Se possui apoio. Se tem chance. Se aquele voto pode efetivamente produzir representação.
Em uma síntese simples: a empatia aproxima, a racionalidade justifica e o consentimento social autoriza.
Uma campanha competitiva precisa trabalhar essas três dimensões.
Mas existe ainda uma parte menos romântica e absolutamente indispensável desse processo: a matemática eleitoral.
Nas eleições proporcionais, não basta saber quantos votos uma candidata pode obter. Nós votamos em pessoas, mas as cadeiras são inicialmente conquistadas pelos partidos e federações.
Uma candidatura proporcional disputa, portanto, duas eleições simultaneamente. Primeiro, seu partido ou federação precisa produzir votos suficientes para conquistar cadeiras. Depois, a candidata precisa conquistar uma dessas cadeiras dentro daquele conjunto.
É aí que entra o quociente eleitoral. De maneira simplificada, ele resulta da divisão dos votos válidos para determinado cargo pelo número de vagas em disputa.
Na eleição para vereador da cidade de São Paulo em 2024, o quociente eleitoral foi de 105.110 votos. Para deputado estadual em São Paulo, em 2022, foi de 246.239 votos. Para deputado federal pelo estado, 332.671 votos.
Isso significa que a pergunta “quantos votos eu consigo ter?” é insuficiente.
É preciso perguntar também: em qual partido ou federação estarei? Quantos votos esse conjunto consegue produzir? Quantas cadeiras pode conquistar? E qual será minha posição dentro dessa nominata?
A votação individual dos eleitos ajuda a acrescentar outra dimensão ao problema. Como simples referência de competitividade — e nunca como uma nota de corte —, o vereador eleito com menor votação nominal na cidade de São Paulo em 2024 recebeu cerca de 22 mil votos. Entre os deputados estaduais paulistas eleitos em 2022, a menor votação nominal ficou em aproximadamente 45 mil votos. Para deputado federal por São Paulo, aproximadamente 72 mil.
Esses números não garantem eleição. O sistema proporcional brasileiro envolve quociente eleitoral, quociente partidário, desempenho individual, distribuição de sobras e outras regras. Uma candidata pode ter mais votos do que outra e não ser eleita porque estão em partidos diferentes.
Mas os números ajudam a transformar uma intenção abstrata numa dimensão concreta.
Dizer “quero ser deputada federal” é uma coisa. Perguntar onde estão as dezenas de milhares de pessoas que podem votar em você é outra.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes de qualquer planejamento de campanha.
De onde virão os votos?
Quantos já estão potencialmente associados à trajetória da candidata? Quantos podem vir de determinado território? De uma categoria profissional? De uma causa? Quanto será necessário crescer? Como chegar até essas pessoas? Qual mensagem produz empatia? Quais argumentos constroem racionalidade? E quais demonstrações de força e apoio produzem consentimento social?
É também por isso que a escolha partidária não pode ser tratada apenas como uma decisão ideológica ou institucional. Ela é uma variável estratégica da eleição.
Uma excelente candidata pode entrar numa nominata tão competitiva que suas chances diminuam. Pode escolher uma legenda com pouca capacidade de conquistar cadeiras. Ou pode encontrar uma combinação na qual sua trajetória, sua base eleitoral e a capacidade coletiva do partido se complementem.
Não basta, portanto, escolher um partido. É preciso compreender a matemática política daquele partido.
Quando começamos a responder a essas questões, uma candidatura deixa progressivamente de ser uma intenção e começa a se transformar em projeto.
E isso nos leva novamente ao início.
Candidaturas não nascem apenas durante o período eleitoral. Uma trajetória profissional pode estar construindo uma candidatura antes mesmo que a pessoa tenha pensado em disputar uma eleição. Uma liderança comunitária pode estar construindo representação. Uma presidente de entidade pode estar acumulando legitimidade. Uma advogada que passa a defender publicamente determinada causa pode construir autoridade sobre aquele tema.
Uma mulher que participa da vida pública, ocupa espaços, estabelece relações, manifesta posições e assume responsabilidades está acumulando algo que nenhuma campanha consegue fabricar nos poucos meses de uma eleição: trajetória.
Por isso, se queremos ampliar a presença das mulheres na política, precisamos começar antes da eleição.
Precisamos ampliar sua participação nos partidos, nas entidades, nas organizações da sociedade civil, nos debates públicos, nos conselhos, nas associações, nos meios de comunicação e, principalmente, nos espaços nos quais as decisões são tomadas.
Representação política não começa com o pedido de voto.
Começa com participação.
Participação pode produzir liderança. Liderança produz reconhecimento. Reconhecimento pode produzir representação. E, em algum momento, planejamento, circunstância, oportunidade e decisão podem transformar tudo isso em uma candidatura.
Isso não significa que toda liderança feminina deva necessariamente se transformar em candidata. Significa que toda mulher que construiu liderança deveria poder olhar para a política e enxergar essa possibilidade como uma continuação legítima de sua trajetória.
Sem precisar começar do zero. Sem servir apenas para completar uma cota. Sem ser convidada porque um partido precisa fechar sua nominata. E, principalmente, sem descobrir depois de aceitar o convite que uma candidatura sem estrutura, recursos, estratégia e possibilidade eleitoral real não é necessariamente uma oportunidade.
Às vezes é apenas um nome numa urna.
O desafio é outro: transformar participação em liderança; liderança em representação; trajetória em discurso; discurso em projeto; projeto em candidatura; e candidatura em possibilidade real de poder.
Porque ampliar a participação feminina na política não significa simplesmente colocar mais mulheres nas eleições.
Significa criar condições para que mais mulheres possam vencê-las.

